A Simpatia do Trocador do Ônibus 1170

Era a primeira vez que eu pegava o ônibus 1170 voltando para a Savassi, que é o bairro onde moro com minha esposa aqui em Belo Horizonte, capital de Minas Gerais. O ônibus passa a cada vinte minutos, e é sempre pontual. O sistema de ônibus aqui é muito bom, há muitos que te levam para todos os lugares, e eles são 24 horas.
Eu entro no ônibus, tiro R$2,30 (em torno de 70 centavos de Euro) da carteira, pronto para pagar o trocador, ele vira para mim, e grita em português:
“Ei Barthez! O Barthez está aqui! O Barthez está no meu ônibus!”
Eu fico estático, com um olhar de “o que está acontecendo aqui?”
O ônibus estava quase  lotado, minha boca completamente aberta, e eu podia sentir meu rosto ficando vermelho e uma gota de suor escorrer na minha testa. Jesus, o que foi que eu fiz?
“Excuse me?”, eu digo.
Ele percebe que eu não sou daqui.
“You Barthez, yes?”
“I’m sorry… mmmm que? Desculpa?”
“You Barthez! Careca, barba.”
(Quem diabos é ‘Barthez’?)
“Não, eu Keith.”
“Kif?”
“Mmmm. Sim.”
Os brasileiros têm um problema com a pronúncia do th no final do meu nome, já que esse som não existe em português, então eles o transformam num f, estou acostumado, mas ainda me faz rir.
“No, you Barthez, goleiro!”
“Goleiro?”
“Sim, goleiro da França!”
Meu deus, Fabien Barthez, o ex-goleiro do time de futebol da França! Eu já tinha ouvido isso antes, a primeira vez do meu irmão. Para ser sincero e não querendo ofender nem o meu querido irmão nem o trocador, é ridículo, porque as únicas semelhanças são a barba e a careca, embora nós tenhamos a mesma idade. Mas ainda é meio ridículo. É como quando todos pensam que todos os carecas são gays! Sim! Algumas pessoas ainda pensam assim.
Eu estava num bar em Dublin com meu amigo Stephen, que também é careca. Um cara nos perguntou se éramos um casal. Com uma voz mais grave do que o normal, eu disse não. Os olhos dele brilharam, mas antes que ele ficasse muito animado, eu falei que não éramos homossexuais. O olhar de decepção na cara dele fez com que eu pedisse desculpas!
“Não quer ser gay por um dia?”, foi a resposta dele.
Quais eram as chances de um trocador tirar sarro de um irlandês, falando que ele é parecido com um francês, no Brasil? Eu estava constrangido, mas não consegui deixar de rir. Andei rapidamente, com o rosto muito vermelho, e me sentei num canto. Nessa hora o trocador, o motorista e outras quinze pessoas já tinham entrado na conversa, estavam todos dando umas boas risadas e fazendo comentários. E mais pessoas entravam no ônibus, e logo eram postas a par do que estava acontecendo. Não tinha como escapar, eles estavam fazendo apenas o que os brasileiros mais gostam de fazer, dar risadas por um motivo qualquer, e eu não conseguia tirar o sorriso do meu rosto.
Eu peguei o 1170 todas as noites depois daquela, e fui cumprimentado como Barthez, e de certa forma eu e o trocador ficamos “amigos de ônibus”. Ele sabe falar algumas palavras em inglês, e gosta de praticar comigo. Pouco tempo depois ele me perguntou qual era meu nome verdadeiro. O nome dele é Geneci. Agora, quando eu pego o ônibus, ele me cumprimenta com um grande sorriso. E quando o ônibus vai embora, ele coloca o braço para fora, acena como um lunático e grita, “Bye, Kif, my friend”. Sempre me faz sorrir.
Esse tipo de interação acontece frequentemente aqui no Brasil. Brasileiros gostam de ser felizes, eles gostam de dar risadas, e ser hospitaleiros uns com os outros. E não é assim que deveríamos ser? Amigáveis, respeitosos uns com os outros. Será que perdemos isso na Europa? Eu perdi. Eu perdi durante o caminho, em algum lugar. Cansei-me da falta de sorrisos, de olás, de tchaus, então eu perdi, de propósito, por rancor. Mas eu estou achando de novo, aqui no Brasil, aquelas linhas de tanto franzir a testa estão gradualmente desaparecendo, e meus ombros não estão tão tensos como eles costumavam ser. Ainda há muito pela frente, mas só de ver meu amigo de ônibus Geneci, e outros como ele, vai me ajudar muito a chegar lá. Ele é um exemplo de como devemos ser, corteses e solícitos uns com os outros. Ele sabe muito bem que toda vez que ele sorri, diz oi, faz um comentário ou diz boa-noite, essa simples e rápida interação vai fazer com que a outra pessoa também sorria, e até fazer com que ela tenha um dia melhor. Ele entende que as mais básicas boas-maneiras, e ter respeito uns pelos outros, é o que faz o mundo dele girar. O que o Geneci não sabe é que ele e pessoas como ele na verdade fazem o meu mundo girar também.  

Traduzido por Adriano Gomes (gomesadriano@gmail.com)

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Comments
4 Responses to “A Simpatia do Trocador do Ônibus 1170”
  1. Henrique says:

    Magnífico!

  2. Caio Vita says:

    Hey, i was touched by your history. it’s so cool when we read something like that and realises that even with all the problems and disrespects in the brazilian culture we still being very humam and warm people.
    I also live in Belo Horizonte and i have a american friend who is living here, i would like that he could read that text but he can’t read portuguese and i don’t have the time to translate that text to english for him. So do you have the original text in english so i can show him it?
    Would be nice if you can post it here.
    Thank you and congratulations for the great blog.

    Hugs

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  1. […] – Olha que delícia este relato de um dublinense morando em BH e suas percepções sobre o povo daqui. […]



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