Lembro quando os Cranberries me visitaram em BH

Os belo-horizontinos têm muito orgulho de serem brasileiros, mas provavelmente têm mais orgulho ainda de serem mineiros. E têm muito mesmo do que se orgulharem. Os mais populares pratos típicos brasileiros, como a feijoada e o feijão tropeiro, são mineiros. O melhor queijo do Brasil é de Minas, que é usado para fazer os deliciosos pães de queijo, responsáveis diretos pelos cinco quilos de pneuzinhos que eu adquiri desde que eu cheguei ao Brasil. A cachaça também nasceu aqui. O estado é famoso pela natureza, suas cachoeiras, cavernas e recursos naturais. Os mineiros são famosos pelo seu caráter reservado, equilibrado e pela simpatia. Minas Gerais é um estado considerado mais autenticamente brasileiro do que o resto do Brasil. Bem mais tradicional do que o badalado Rio de Janeiro, mais nativo do que o cosmopolita São Paulo que é cheio de italianos (imagine!). O sul é repleto de alemães, o norte tem os seus povos indígenas e o nordeste a influência africana. Confiem em mim, crianças, eu sou um dos poucos estrangeiros vivendo aqui em BH (Belo Horizonte), e não há sinal de um bar irlandês daqui até o Rio de Janeiro. Com todos esses elogios, você poderia dizer que, na verdade, Belo Horizonte não é apenas a capital de Minas Gerais, mas sim a verdadeira capital do Brasil.

Sim, mineiros vocês são 30 milhões de orgulhosos. Então, quando Dolores O’Riordan, a cantora do grupo irlandês ‘The Cranberries’ sobe ao palco do Chevrolet Hall, em BH, vestindo a bandeira com o famoso triângulo vermelho, o rugido da platéia parece surgir das profundezas das minas de ouro do estado, e faz tremer o chão quase a ponto de rachá-lo ao meio. Eu me arrepiei todo.

Nós não tínhamos planejado ir ao show, mas foi ideia da minha mulher, ela sabia o tanto que eu estava saudoso do meu país, principalmente perto do Natal. Acho que por isso mesmo eu hesitava em ir ao show. Eu temia a minha reação quando eles começassem a tocar. Eu poderia pular no palco, tentar abraçar a Dolores e talvez nós cantássemos ‘Zombie’ juntos. Claro. Nos meus ‘Dreams’, se me permitem o trocadilho.

Eu nunca tinha ido a esse lugar, Chevrolet Hall. É basicamente uma grande arena de basquete. Há lugar para aproximadamente 3 mil pessoas. A idade do público variava de 18 a 45 anos, e, para minha surpresa, todos os ingressos haviam sido vendidos. E não que fossem baratos. Cada um custava R$140, mais ou menos €50. Lembrem-se de que o salário mínimo no Brasil está em torno de €200, então não sobra muito para sobreviver. Mas eles cantaram todas as músicas. Eles vestiram verde. Eu estava definitivamente emocionado. Parecia que algumas pessoas iriam arrancar os cabelos de tão exaltados. Eu já sou careca, então, sem chance.

O acolhimento do público foi muito bem recebido. Dolores e banda fizeram um ótimo show. Ela tem um forte sotaque de Limerick, e até eu tinha dificuldades em entendê-la. Ela falou para os mineiros que a cidade deles é ótima, com árvores lindas e ela deve ter chamado todo mundo de “bonito” umas cem vezes. E ela ainda andou no meio do público durante toda “You and me”. Eles tocaram tudo que você gostaria de ouvir e também algumas músicas do álbum-solo dela, No Baggage, que eu não tinha ouvido, mas que gostei bastante. Switch off the moment e Journey foram tocadas no bis, que ainda incluiu uma das minhas favoritas, Empty, e aí a última da noite: Dreams (Faye Wong fez uma versão em cantonês, que é tocada no filme Chungking Express, de Wong Kar Wai – aposto que vocês não sabiam disso!).

Então, no final, eu consegui me segurar e não agredir a Srta. Riordan. Mas a bandeira tricolor foi balançada de cima para baixo, e da esquerda para a direita, desesperadamente, para tentar chamar a sua atenção. Esperávamos que ela fosse nos dar um aceno, ou talvez até mesmo dizer: “Jesus, ei pessoal, que tal uns drinques depois do show no nosso hotel?”. E mesmo com minha mulher tentando burlar a segurança e entrar no camarim depois do show, não teve jeito. Com certeza ela não viu a bandeira, ou talvez ela seja daltônica e confundiu a bandeira, achando que fossemos italianos doidos que tinham vindo de São Paulo.

Com ambas as bandeiras erguidas, foi um prazer estar ao lado de vocês e cantar as músicas de uma banda irlandesa. Na bandeira de Minas Gerais enrolada no corpo de Dolores, podíamos ver várias mensagens de boas-vindas dos belo-horizontinos. Que vocês saibam que suas vozes não se limitam ao estado de Minas Gerais, elas alcançam a sempre verde Irlanda.

Traduzido por Adriano Gomes (gomesadriano@gmail.com)

 

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