Belo Horizonte é muito hollywoodiana (English text below)

Minha esposa me disse certa vez que não precisamos alugar DVDs aqui no Brasil, já que a ação nas ruas do país já nos proporciona emoções o bastante. “É mesmo?”, eu perguntei. Ela me disse isso segundos depois de eu ter saído do avião, e pouco tempo depois de eu ter tomado a decisão de deixar meu emprego, amigos, família, cidade, país e continente (tudo por amor, claro). Provavelmente não foi a melhor coisa a se dizer naquele momento. Virei meu rosto e vi o aeroporto cada vez mais longe, com olhos de cachorro abandonado e uma mão na janela. Era tarde demais, não tinha volta, e ela já havia trancado as portas do carro.

Um ano se passou depois daquelas calorosas boas-vindas ao Brasil. Eu não tinha nenhuma razão para duvidar da minha amada. Minha esposa, como todas belo-horizontinas, vai de carro até a loja da esquina, e não vê o que ‘realmente’ acontece aqui em BH. Eu sim. Eu ando para todo lado, por que a meu ver, é um jeito de manter a forma e conhecer mais a cidade (e meu deus, a cultura de se usar carro aqui em Belo Horizonte é horrível, um carro a menos realmente faria diferença). Eu juro que não tem nada a ver com não saber dirigir, e não ter dinheiro para comprar um carro. Eu juro. Pessoas, eu sou um cidadão do primeiro mundo, não se enganem. Enfim, o que eu quero dizer é que eu vejo, perambulando pela cidade e subindo os íngremes morros, as veias e artérias que formam a capital de Minas Gerais.

Belo Horizonte é uma cidade conservadora: nós vamos para a academia, nós comemos pão de queijo e arroz com feijão, assistimos ao futebol e vamos ao mercado central, e terminamos o dia com uma Brahma ou dez. Tudo muito comum. Não pode se comparar com as ‘animadas’ ruas do Rio de Janeiro, onde temos cenas que parecem com os filmes ‘Duro de Matar’ e ‘Mad Max’ juntos, do começo ao fim, e sem parar. Pelo amor de deus, eles derrubam helicópteros no café da manhã. A coisa mais emocionante que acontece aqui em BH é quando o Cruzeiro ganha um jogo (o que não acontece muito frequentemente). Bem, crianças, hoje eu tive a comprovação de que eu estava errado. Às dez horas da manhã eu presenciei o desarme de uma bomba na Avenida Prudente de Morais!

Eu estava caminhando para uma aula, e às sextas-feiras isso significa que tenho que fazer uma caminhada do bairro Anchieta até Lourdes, e depois voltar para o Anchieta. Eu faço essa escolha. Salvando o meio-ambiente, e tal. Indo em direção ao Lourdes, eu notei que as ruas estavam um pouco vazias. Só este fato já era preocupante, já que todo mundo em BH tem carro próprio, portanto ruas vazias indicam que algo está errado. Daí eu vi a razão do fenômeno. A primeira coisa que eu vi foi uma faixa policial isolando os dois lados da rua, e controlando essa nova fronteira estava um policial com uma arma bem grande. Bem ‘Rambo’, eu pensei. Claro que eu não ia gritar isso para ele, certo?

Eu sou um dublinense, e ver armas como aquela na minha frente só aconteceria na Irlanda se eu estivesse assistindo à televisão. Aqui eu já vi uma viatura policial, dirigindo no estilo fórmula um, com oito policiais dentro. Um deles segurava uma arma parecida com uma metralhadora, para fora da janela! Mas o mais impressionante da cena nem era a arma, e isso o fato de que eles estavam num Fiat Uno… Eu não sabia se ria ou se cagava nas calças. E, para ser sincero, quando se tem oito policiais espremidos como sardinhas num Uno, o melhor lugar para uma arma dessas é realmente para fora do carro.

Enfim, havia policiais para todo o lado, e fecharam as ruas num raio de um quilômetro, pelo que parece (viram, se eu estivesse dirigindo eu teria perdido tudo isso!). Todos tinham parado para olhar o que estava acontecendo, com celulares em punho, e muitos “nossa senhora”, “que é isso, gente”, e “que foi”, o que em bom inglês dublinense soaria mais ou menos como “Jaysus, what’s the story here lads?”.

Agora, se você viu o filme ganhador de Oscar “Guerra ao Terror”, você vai se lembrar do cara cujo emprego era desarmar os explosivos. Bem, ali do lado de um dos policiais, na Avenida Prudente de Morais, BH, tinha um desses caras com a mesma roupa gigantesca. Bem, ou era isso ou ele estava vestido como o robô de “Perdidos no Espaço”. Ele tinha acabado de colocar a roupa, e estava andando bem no estilo robô em direção a uma pequena área verde.

Eu estava em estado de choque! Dei dois passos para trás como uma garotinha assustada, e imediatamente liguei para minha esposa para contar a fofoca. Ela rapidamente espalhou a notícia no escritório. Tudo muito ‘Sex and the City’. O pior é que eu não posso provar o que estava acontecendo a poucos metros de mim, eu estava tão impressionado que nem tirei nenhuma foto. Bem, para ser justo, eu não tive tanto tempo. A multidão de policiais gritava para que todos saíssem dali.

Eu cheguei ao escritório do meu aluno e antes que ele pudesse abrir a boca eu contei tudo que tinha testemunhado. Ele, como eu, estava estupefato. Ele nunca tinha ficado sabendo de nada parecido em Belo Horizonte. Aí ele começou a me contar (me interrompendo, como esse aluno sempre faz… insolente!) que na semana anterior ele estava dirigindo numa grande avenida às oito da manhã quando, do nada, um grande tijolo veio voando, em direção ao seu pára-brisa. Ele teve de fazer uma manobra arriscada para desviar. O tijolo teria sido atirado da passarela por alguns garotos que moram na favela mais próxima. Bem, se ele estivesse usando o transporte público isso não teria acontecido, eu pensei. Segundo um sujeito que mora ali perto, a idéia é que o motorista pare o carro, e enquanto ele senta no meio-fio tendo um ataque de nervos, os garotos vêm e o assaltam. Já tivemos esse problema na Irlanda, mas apenas pequenas pedras eram lançadas, não rochas, e os garotos só estavam se divertindo. Aqui eles fazem isso para lhe roubar! Muito mais criativo.

Então é isso, meninos e meninas, aparentemente minha mulher estava certa, você não precisa ir ao cinema ou gastar dinheiro com DVDs piratas. Atividade terrorista e o esporte romano de catapultar rochas chegaram a BH. A moral da história? Deixe seu carro em casa, você pode estar perdendo o que acontece, e isso pode salvar sua vida!

**Traduzido por Adriano Gomes. (gomesadriano@gmail.com)**

Robbie the Robot

robô de ‘Perdidos no Espaço’

No need to go to Afganistan, there's a job right here in BH.

Nem precisa ir ao Afeganistão, temos trabalho para você aqui em BH.

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Belo Horizonte is all very Hollywood

My wife once said to me, there is no need to rent out DVD’s, that there’s enough action on the streets of Brazil to keep you enthralled.  “É mesmo”, really, I said. She mentioned this just after I stepped off the plane, after having made a rather big decision to leave my job, friends, family, city, country, and continent (all for love of course). It probably wasn’t the most appropriate thing to say at that time.  And as we drove away, I remember looking back at the airport with puppy eyes, clawing at the window. It was too late, there was no going back, and she had already locked the doors.

One year after that delightful welcome to Brazil. I had reason to doubt my beloved. My wife like all of you ‘Beloirinas’ uses her car to go the corner shop, and thus does not see what is ‘really’ going on here in Bh. I do. I choose to walk everywhere, because in my eyes, it’s a way to keep fit, and get to know that city, (and deus meu, the culture of car use here in Belo is simply disgusting, one less car can make a difference).  I swear it’s nothing to do with not being able to drive, or having no money to buy a car. I swear. People, I’m from the 1st world, don’t fool yourselves. Anyway, my point is that I see on a daily basis, through my meandering walks / hill climbs, the veins and arteries that form the capital of Minas Gerais.

Belo Horizonte is a conservative city, we go to the gym, we eat our pão de queijo, our beans and rice, watch football, visit Mercado Central, and finish off the day’s events with a Brahma or 10. All very ordinary. It can’t be compared to the ‘lively’ streets of Rio de Janeiro for example, where there, it’s just like watching all the ‘Die Hard’ and the ‘Mad Max’ movies together, back to back, and non-stop. For god’s sake, there, they shoot helicopters down for breakfast t. Here in BH, the most exciting thing that happens is when Cruzero football team wins a match (and that doesn’t happen a lot!). Well, today children, I was proved very wrong. At the early hour of 10pm, there was a bomb disposal unit on Prudente Morais Street!

I was going from class to class, and on a Friday, this entails a walk from the neighbourhoods Anchieta to São Bento, from there to Lourdes, and then back to Anchieta. I choose to do this. Save the environment and all that stuff.  Heading towards Lourdes, I noticed that the roads seemed kind of empty. This alone is cause for concern as every single person in BH has a car for themselves, and therefore empty roads mean something is amiss. I then came upon the reason for this phenomenon. The first thing I seen was police tape blocking off the 2 sides of the street, controlling the new border was a tall police officer with a very large gun. “Jaysus, very Rambo”, I thought to myself, just ‘thought’, well, in fairness, I wasn’t going to shout it at him was I?

I am from Dublin, and so seeing guns on show like this, would mean you’re a watching a movie. Here I’ve seen a police car, driving formula 1 style, with 8 coppers inside. One of the them had in his hand a machinegun-like weapon hanging out off the window!. But actually the weirdest thing about it wasn’t the gun, but the fact they were driving a Fiat Mille….I didn’t know whether to laugh or shit myself . In fairness when you have 8 police officers squeezed in to a Mille like a pack of sardines, I suppose the best place for such a weapon is probably outside of the car.

Anyways, there were police everywhere, and traffic had been closed off for a km radius it seemed (you see folks, if I was driving, I would have missed this!). Everyone had stopped to look at the goings on, mobile cameras were out, and there was plenty of “nossa senhora”, “que e isso gente?”, e “que que foi?” going on, which in Dublin lingo roughly translates to “Jaysus, what’s the story here lads?”.

Now, if you have seen the oscar winning movie “Hurt locker”, you will remember the guy whose job it was to disarm the explosives. Well there beside a police fan, on Prudente Morais, BH, was one of these guys wearing the same huge suit. Well, either that, or he was dressed up as Robbie the Robot from “Lost in Space”. He had just been suited up and was presently walking Robbie the Robot style-like towards a small park like area!

Gente, I …was….in…..shocke, shocke!.  I backed away and like a girl, immediately rang my wife and told her the gossip. She quickly told everyone in the office. All very ‘Sex in the City’ like. The thing is I can’t even prove it to you, as I was so amazed at what was going on 50 feet in front of me, that I didn’t take a photo. Well, to be fair, I didn’t really have time to be hanging around. The multitude of shouting policemen were ushering me on.

I arrived at my students office, and before he opened his gob I quickly told him what I had just witnessed. He like me, was flabbergasted. Never before had he heard of such goings on in Belo. He then proceeded to tell me (by interrupting me as this particular student always does..cheek!) that only last week, he was driving on a main street at 8am, and flying through the air toward his windscreen came a rather large brick. He had to swerve to avoid it. It had been thrown from the overhead pass by some kids from the near-by favela. Well, if he had used public transport, this wouldn’t have happened, I thought to myself.  According to a local there, the idea is, after you pull over and while you sit there having a nervous breakdown about being nearly killed, the little feckers come and rob you. We use to have this problem in Ireland, but they were only small stones, not large rocks, and there they were just doing it for fun. Here they do it to rob you!, much more inventive.

So there you go girls and boys, it seems my wife was right, your really don’t need to go to the cinema or waste money on copied DVD’s.  Terrorist activity and the roman sport of rock catapulting has come to BH. What’s the moral of the story?, leave your cars at home, you’re missing all the action, and it might just save your life!.

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Comments
7 Responses to “Belo Horizonte é muito hollywoodiana (English text below)”
  1. Philippe says:

    Hahaha
    nice blog 🙂

    Dei bastante risada com suas histórias.
    Falta realmente um bar Irlandês em bh.
    Apesar de termos inúmeros bares.

    Vamos marcar de beber umas Kilkenny,Harp ou Murphy’s Irish Red Beer 🙂 qualquer dia hehehe

    Cheers!!!

  2. claudia baquedano says:

    A moral da historia pra mim: Alugue filmes online =)

  3. Marcelo Carneiro says:

    Olá Kif!!! hehehe

    Ri muito dos seus textos! Você é muito espirituoso hehe
    E você conseguiu definir Minas e os mineiros até melhor do que nós mesmos! Parabéns!

    O motivo do comentário também é um convite para você e sua esposa. Infelizmente só descobri o blog agora e não pude fazer o convite antes. Sou membro do grupo de discussões do blog http://www.e-dublin.com.br, que reúne gente que já foi, gente que está lá e gente que ainda vai pra fazer intercâmbio em Dublin. E amanhã nós, membros daqui de BH iremos nos encontrar para nos conhecermos, trocarmos umas ideias e uns chopps claro. Seria uma honra se você e sua esposa estivessem presentes e dividirem conosco um pouco da experiências de vocês… Qualquer coisa estaremos lá a partir das 21 horas. Só procurar pela mesa de Marcelo Carneiro ou e-Dublin. O Frei Tuck já vi que conhece…

    Favor traduzir Adriano!! hehe

    Abraço!

  4. Beca P. says:

    Olá! Gostaria de informar que seu blog foi um dos meus indicados no Blog Day.
    Conheci hoje, mas já me diverti bastante lendo alguns dos textos.
    Abraços,
    Rebeca

    http://modadabeca.blogspot.com

  5. Iae irmao… tudo tranquilo?
    tava lendo teu blog… muito legal!
    parabens..
    vou acompanhar ele, bom que aprendo um pouco de ingles.. rsrs

    abraços

  6. Cleide says:

    Keith!

    Que história mais surreal, eu nem imaginava uma cena dessas aqui em BH… mas tudo é possível, não é?

    Engraçado, acho que sou uma das poucas mineiras que gosta de andar à pé. Sempre que posso, vou trabalhar caminhando, e para os lugares distantes eu pego o ônibus. Mas vou confessar, o transporte público aqui não é bom… por isso a gente sempre fica sonhando com o dia em que comprará um carro e não precisará ficar se deslocando em ônibus péssimos e lotados…

    Mas caminhar é bom, e em BH especialmente, sempre é época de alguma árvore florescer, e as milhares de cores são um alívio para os olhos!

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